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Episódio #001, "Glocal devs"

Quantas versões de Revolução Industrial existiram ou existirão? Três? Quatro? Terminologias cheesy desinformam no melhor, e no pior dos casos geram uma bagunça semântica difícil de desvendar. Mas, calma, pode ter solução:

"A adoção das fábricas não tinha nada a ver com superioridade tecnológica. Ao invés, sugeriu que os donos dos meios de produção (e não os trabalhadores) pudessem controlar o processo de trabalho e a quantidade de output... A mudança na participação nos resultados foi alcançada através de supervisão e disciplina... com o monitoramento ostensivo e o controle do sistema fabril, passou a ser possível forçar pessoas a trabalhar mais duro e produzir mais por pouca ou nenhuma remuneração adicional. (Maglin, 1974)

Quer dizer, a centralização do trabalho sob o mesmo teto na Inglaterra Victoriana do século XIX foi opcional, já que era fato e continuaria sendo o desenvolvimento de um modelo geograficamente distribuído (nas cidades), preservando interdependência e remuneração justa aos agentes que produziam ou montavam as partes de um dado produto.

Agora, fast forward 100 anos. De 1940 a 1995, o método Victoriano também subsidiava a consolidação dos escritórios 9am to 5pm, centralizando a operação sob o mesmo teto para, pasme, controlar as pessoas e a informação no melhor estilo da hoje monolítica IBM, canonizando assim o paradigma corporativo e o status enquanto expressão de ascendência social.

De 1995 a 2005, então, vimos a internet e a web sairem do domínio militar para escalar o domínio comercial, provocando a descentralização de dados e assim preparando a ruptura entre trabalho e espaço físico. Daí por diante, ladeira abaixo. Com a rede ficando mais "social", com a tecnologia "cloud" alcançando o mainstream e a crescente qualidade no acesso à internet, ano após ano e cada vez mais rápido, o modelo Victoriano de trabalho tem em perspectiva um solene colapso. Se este é o caso, então a questão fundamental não reside na versão Industrial do momento, mas na real natureza da Revolução.

Quer dizer, com algum esforço, dá pra dizer que os gatilhos até podem ser tecnológicos, mas o pleno entendimento da mudança passa pelo mindset e o comportamento que resgatam o modelo distribuído da economia compartilhada pré-industrial. Separamos três pra começar:

  1. "Pense tarefa, não tempo." Tammy Erickson anunciava lá em 2007 que esta seria a aspiração fundamental dos Millennials, maior força de trabalho da história da humanidade, turma que controlaria o middle management 10 anos depois, ou seja, no ano passado.
  2. Trabalho assincrônico. Com o mundo cada dia mais flat, natural que o câmbio continue jogando a favor de contratantes globais (sem novidade), mas agora também de contratados locais ou nômades, provocando importante economia financeira e aumento de renda para as partes, respectivamente.
  3. O novo status. Com contratados vivendo remotamente e trabalhando por tarefa, natural para ambas as partes buscar soluções imediatamente disponíveis, flexíveis, que não imobilizem ativos nem provoquem perda de produtividade. Daí a máxima de tudo-como-serviço--desde software até espaço de trabalho, logo o novo status associado ao ser e não mais ao ter.

As consequências "glocais" (termo clássico que mescla global e local) são inúmeras e diversificadas para negócios e profissões/habilidades, mas uma em especial chama atenção em Floripa como cidade vocacionada para o desenvolvimento de software: os "glocal devs", profissionais sênior de tecnologia que trabalham para empresas americanas e europeias, notadamente.

Então é isso, chegamos ao tema do primeiro episódio de podcast do Supernova, entre outras novidades que vamos compartilhar mais adiante. Agora anota: dia 7 de Dezembro você vai no Spotify ou no Soundcloud para ouvir o que temos a dizer. Em seguida, volta aqui para conversar e receber o convite para um evento no S7. Combinado?

Esperamos você.

Marcelo


Referências

Robertson, Paul L. Authority and Control in Modern Industry: Theoretical and Empirical Perspectives. New York: Routledge, 1999.

Erickson, Tammy. Think task, not time. Harvard Business Review, 2007. https://hbr.org/2007/03/think-task-not-time


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Sobre Marcelo Neto

Director and Founder at S7; conceptor; naming artisan; writer and philosophy researcher.
  • Florianópolis